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Um diálogo inacabado
Por: DOM ALOÍSIO ROQUE OPPERMANN
SCJ ARCEBISPO DE UBERABA, MG
 
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Numa dessas visitas dos Bispos Brasileiros aos Dicastérios  Romanos, (há mais de 20 anos),  estávamos aproximadamente entre 35 sucessores dos Apóstolos, na Congregação para a Doutrina da Fé. Fomos recebidos como irmãos pelo então Cardeal Ratzinger e toda a sua equipe. Foram momentos preciosos, pois o Cardeal era conhecedor, não só da Doutrina Católica, mas também da Teologia Protestante e da Ortodoxa. Tive a presença de espírito de gravar aquele rico encontro.

Esgotados todos os assuntos relacionados à pureza da fé em nossas Dioceses, o Cardeal Ratzinger, num gesto fraterno, perguntou se alguém teria mais algum assunto a comentar. Aberta essa possibilidade, abordei o difícil assunto da excomunhão que resulta da prática do aborto. Excomunhão é uma pena pesada, prevista no Direito Canônico, que priva o fiel do direito de participar da vida sacramental da Igreja.  

O Cardeal pediu que eu expusesse as razões das minhas dúvidas. Para surpresa minha, um colega, sempre muito amigo, se mostrou incomodado com a minha questão, e chegou a levantar a voz. Como se pode imaginar, criou-se um ambiente desagradável e impróprio para o diálogo (gesto inédito entre os Bispos). Após umas perfunctórias explicações, o tema foi desconversado. Não me senti plenamente como Sucessor dos Apóstolos.

Passado tanto tempo exponho as razões por que considerei a penalidade inadequada. Nunca vi um mandante desse péssimo procedimento ser punido. Quem é punida com a excomunhão é a mãe do nascituro.

Nenhum parente ou pessoa relacionada, que aconselhou a prática abortiva, que providenciou a execução, dos que pressionaram sem parar, é punido (embora a lei eclesiástica o preveja). Continuam comungando tranquilamente. De todos os envolvidos, quase sempre a mãe é a menos culpada. Ademais, essa excomunhão para a mãe não é educativa. Ela se sente estigmatizada e marcada. É um golpe fatal, sem remissão, no seu ego. Gostaria que se punisse o pecado, com mais misericórdia.

Eis que, inesperadamente, o Papa Francisco retoma o assunto. Parece ter estado presente naquela reunião, e agora reabre o tema. Continua firme a convicção de que se trata de um pecado grave. Mas as Escrituras nos ensinam: “A sua misericórdia dura para sempre” ( 1 Cr 16,  34). Também para a pecadora arrependida.

 
 
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