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Cheios de esperança
Por: DOM ALOÍSIO ROQUE OPPERMANN
SCJ ARCEBISPO DE UBERABA, MG
 
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Não pretendo abrir uma discussão com o grande teólogo do cristianismo, que é São Paulo. Ele afirma, com o peso da sua autoridade, que “a maior das virtudes é a caridade” (1 Cor 13, 13). Pelo simples fato de ela permanecer pela eternidade, e as outras, cumprida a sua missão, desaparecerem. Mas então restaria uma polêmica, bastante acadêmica, para descobrir qual é a virtude mais importante, comparando entre si a fé e a esperança.

Novamente descobriríamos que a fé é mais importante, porque o próprio “apóstolo das gentes” afirma que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Heb 11, 16). Dito isso, queremos abordar, com grande respeito, algumas considerações, nascidas do estudo e também da oração, sobre a virtude da esperança.  É uma virtude, bastante esquecida, tocada “en  passant”, até nas nossas orações. Mas considero-a essencial para os homens e as mulheres de todos os tempos. O assunto que vou abordar diz respeito a todos nós.

Antes de tudo, porém, quero escapar das tenazes sufocantes dos sentidos menores desta palavra. O verdadeiro sentido da esperança está minimamente envolvido quando falamos que “vou esperar o ônibus”. Ou quando o agricultor fala que “espera uma boa colheita”. São modos legítimos e humanos de se expressar, mas que restringem o seu sentido para o âmbito das realidades terrestres. 

A esperança alcança o seu sentido mais completo quando o objeto de nossas esperanças  se refere ao ser essencial, quando nos referimos ao absoluto, ao definitivo, ao único Ser realmente necessário. Quando São Pedro fala  que devemos “ser abertos para uma viva esperança” (1 Pd 1,3),  encoraja-nos a nos voltarmos ao Ser Divino, que nos aguarda com sentimentos de Pai. Quando temos esperança referente a Deus, expressamos com isso o nosso mais profundo sentimento de confiança no Criador. Somos obra do seu carinho, e destinados a nos encontrar com Ele.

Para quem tem essa “viva esperança” segue um primeiro corolário. Encho-me de convicção de que não sou um número no universo, mas sou uma referência conhecida pelo Pai. Assim cresce a autoestima, e a valorização da minha missão. Nasci para alguma coisa, para a qual ninguém tem jeito, a não ser eu. O Criador e eu somos amigos. Ele depositou confiança em mim. E para mim Ele se torna o Ser mais íntimo dentro de mim mesmo.

O segundo corolário é que essa esperança me dá a certeza de que me encontrarei “face a face com o Criador” (1 Cor 13. 12). Ele será o grande estimulador da minha personalidade; dará todas as condições para que eu me realize em plenitude; fará com que o meu ser exista para sempre numa perfeita harmonia; colocará em minhas mãos a eterna possibilidade de me sentir útil; fará com que eu compreenda com clareza como sou amado, e abrirá as oportunidades para amar, sem jamais cansar.

Essa dimensão da verdadeira esperança está ausente de muitos corações, nos tempos atuais, tornando sua vida fútil e sem perspectiva. Quem vive sem esperança no transcendental é um pássaro enjaulado, batendo asas contra as grades da sua prisão. Somente a esperança poderá fornecer as dimensões da grandeza do ser humano, que confia e espera. Não quero entrar, por falta de espaço, no aspecto do Povo de Deus que, como as pessoas em particular, tem uma missão a realizar nesta terra, e uma outra, também na pátria definitiva

 
 
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