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Alimento duas vezes distribuído
Por: DOM ALOÍSIO ROQUE OPPERMANN
SCJ ARCEBISPO DE UBERABA, MG
 
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O pensador espanhol Unamuno  - que nem sempre sabia se ele próprio era socialista, católico, protestante ou agnóstico – teve uma afirmação genial. Ao ler os conteúdos teológicos da Eucaristia, concluiu que se ela não existisse, deveríamos inventá-la. Tal é sua sublimidade e genialidade.

De fato, ela é o “pão da unidade”, como nos demonstra o Congresso Eucarístico de Brasília. Distingue-se admiravelmente de todos os outros alimentos. Se alguém se alimenta de arroz, seus nutrientes são assimilados pelo organismo de quem se alimenta.

É como dizia o excelente teólogo alemão, Wilfried Hagemann, essa comida se transforma em Hagemann. Os biólogos gostam de chamar a esse processo de intussuscepção (incorporação).  Mas já Santo Agostinho nos advertia que, ao comermos o pão eucarístico, nós nos transformamos em Cristo. Isso é, acontece o contrário. O comungante é incorporado na pessoa divina de Jesus. O Mestre, sem rodeios, dizia: “Quem comer deste pão viverá eternamente”  (Jo 6, 51). Somos assimilados na herança do Salvador.

O grandioso da Eucaristia não termina aqui. A partir do momento em que somos sempre mais identificados com Cristo, começa outro capítulo. Agora é que se entra nas finalidades derradeiras do sacramento. Eu posso me alimentar do “verdadeiro pão do céu”  (Jo 6, 32), para ter um momento íntimo com meu Mestre. É tão bonito esse momento, que ninguém deveria tirar fotografia nossa, enquanto estamos adorando o Senhor. Seria devassar a intimidade, enquanto fazemos nossos pedidos, adorando-o, e lhe agradecendo. Também esse é o momento para nos sentirmos Igreja, relacionados com nossos irmãos, nossa comunidade.

Isso fez Santo Tomás dizer que esta é uma das grandes finalidades do “sublime sacramento”. Mas existe um outro grande tesouro, muito escondido. O comungante, a partir deste momento, pode se tornar “pão da vida” (Jo 6, 35) para os outros. Pela prática da caridade, ele alimenta a unidade entre as demais pessoas do mundo. Mesmo que os outros não recebam o corpo do Senhor, recebem esse alimento pela nossa bondade. Esta é a segunda distribuição do Corpo de Cristo. Realiza-se o que o Senhor previu: “Hoje a salvação entrou nesta casa”  (Lc 19, 9).



 
 
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