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Inútil discussão
Por: DOM ALOÍSIO ROQUE OPPERMANN
SCJ ARCEBISPO DE UBERABA, MG
 
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Nossa mentalidade, após os solavancos filosóficos de quatro séculos, continua cartesiana.  As “idéias claras” exigem que coloquemos, numa ordem de precedência, o amor a ser prestado a Deus, e o amor ao semelhante. Isso já Santo Agostinho, mente privilegiada, havia dirimido.

Na importância, e no seu valor intrínseco, - dizia o grande mestre - tudo cabe primeiramente a Deus. Mas na ordem prática, mesmo na cronológica,  a precedência cabe ao próximo. “Amarás a Deus sobre todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 37. 39). O povo cristão luta para entender isso. O Pai Eterno é um ser amoroso e sumamente amável. Mas ele não admite que esqueçamos os outros filhos seus.

Os governos modernos, após a revolução francesa, se apoderaram da “ação social” do cristianismo. Hoje todos os poderes políticos, fazem questão de serem “sociais”. Isso foi muito bom, pois quem recolhe os impostos, portanto tem dinheiro para agir, é o poder secular. O papel das nossas comunidades caritativas, se tornou supletivo.

Mas não podemos esquecer, que a organização pública jamais conseguirá fazer tudo. Jesus já avisou: “pobres sempre os tereis” (Mt 26, 11), como se antecipando ao Bolsa Família, cujo benefício se estenderá a perder de vista. As nossas Paróquias sempre costumam ter alguma ação social. A maioria está na linha assistencial. Sempre há alguma sopa, alguma cesta básica, a construção de alguma casinha, um socorro de remédios lá, uma concessão de roupas acolá.

Hoje não há mais espaço para grandes obras, fora do Estado. É evidente que as ajudas de particulares são modestas, temporárias, emergenciais. O perigo que reside na assistência, venha de onde vier, é  o famoso “paternalismo”. É o refrão: “papai resolve”, que reduz os beneficiados ao infantilismo. (Disso nem o “Bolsa Família” escapa). Melhor do que isso é a promoção humana, por exemplo, através da educação, e do aprendizado de profissões. E para quem tiver coragem para as incompreensões, ainda existe espaço para a caridade libertadora, pela qual não se trabalha para os pobres, mas com os pobres. O importante para todos é aprender de Jesus a olhar com amor e simpatia os empobrecidos. Esse amor ensinará o caminho melhor da ajuda a ser prestada.



 
 
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