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Dessacralização.
Por: DOM ALOÍSIO ROQUE OPPERMANN
SCJ ARCEBISPO DE UBERABA, MG
 
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Uma das constantes do cristianismo sempre foi a de chamar a humanidade para o raciocínio. Por isso, desde o começo os cristãos não aceitaram a idéia generalizada de haver “carvalho sagrado” (São Bonifácio, como ato de fé, derrubou um carvalho, como início da evangelização dos germanos); não existe “água santa” (seria uma fonte na qual ninguém poderia mexer, sob pena de castigo divino); não adotamos o costume da Índia de não usar carne bovina porque a“vaca é um animal sagrado” (que me desculpem os hindus). A única presença sagrada neste universo, que a fé cristã admite, é a do homem e da mulher, por serem imagem de Deus. E sobretudo presença santa de Cristo, que viveu em nosso meio.

Também as convicções cristãs não permitem acreditar que certos lugares ou objetos (ou números) possam ser portadores de azar. Assim, dizer que uma casa é “azarada”, ou que “pousou urubu”, porque já foi assaltada 5 vezes, é taxado como superstição.

Será necessário verificar as condições de segurança, e não apelar para explicações mágicas. Cai na mesma circunstância carregar de “peso negativo” o número 13, ou achar que o automóvel tem “urucubaca” porque já participou de vários desastres. Neste caso se precisa, antes de tudo, verificar as qualidades do motorista.

Não fica distante disso a prudência dos cristãos em qualificar como “milagre” um fato que, à primeira vista, nos surpreende. Se alguém fica curado de uma terrível doença, a primeira interpretação deve ser natural: “com a graça de Deus, o remédio fez bom efeito, o médico teve boa intuição, a natureza do paciente é forte”. Se isso não explica o que aconteceu, então podemos considerar que foi uma intervenção miraculosa de Deus. Mas só depois de esgotar as outras explicações.

Comportar-se dessa forma, não exclui a fé no poder divino. Não coloca ao Pai Celeste fora da realidade da vida. É imitar Jesus, que não foi um homem caído para devaneios, ou para visões fantasiosas. Mas chamava a todos para o chão da vida. Com seus ensinamentos nos mostrou que devemos estar distantes de acreditar em “forças ocultas” que nos prejudicam, ou de buscar “soluções mágicas” para a existência. Jesus repetiu inúmeras vezes: “Não tenhais medo” (Mc 6, 50). Fazer do medo uma energia para o comportamento, é mau programa. Ele nos ensinou: “A verdade vos libertará” (Jo 8, 32).



 
 
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