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Uma "santidade" que atravessa os séculos
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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Nhá Chica no altar do coração dos devotos

Devotos e romeiros do Brasil todo contam os dias. Falta pouco para a solenidade oficial de Beatificação da leiga Francisca de Paula de Jesus (1810-1895), carinhosamente chamada Nhá Chica, em Baependi, Sul de Minas Gerais, dentro da circunscrição eclesiástica da Diocese da Campanha. O caminho para a santidade é uma longa trajetória de fé. Mas esta "santinha", como antecipam os católicos que há muito elevaram Nhá Chica ao altar de seus corações, tornou-se, desde o século passado, um abnegado exemplo de cristandade.

Francisca nasceu em 1810, no povoado de Santo Antônio do Rio das Mortes (no município de São João Del Rei) e mudou-se aos 8 anos de idade para Baependi, lá vivendo até completar 85 anos. Filha de escrava, não sabia ler ou escrever, porque esta era a condição da imensa maioria das mulheres, sobretudo as mais simples, no século XIX. Mas a humilde devota de Nossa Senhora da Conceição escreveu sua história do vida no mais sagrado livro de quem persegue a santidade: uma vida inteira dedicada a Cristo.
Relatos orais, preservados e publicados pelos próprios devotos após sua morte, trouxeram aos nossos dias, o registro de sua incontestável entrega às coisas de Deus. Os testemunhos que se proliferavam ao longo dos anos, foram o primeiro sinal para que a Diocese da Campanha, pela ação de seus bispos, como sucessores dos Apóstolos, reconhecesse a luz desta Serva e desse início ao Processo de Beatificação. Exaustivas e criteriosas pesquisas foram feitas pela Comissão Histórica e um  levantamento teológico documental foi atestado pelo Tribunal Eclesiástico da Causa de Beatificação de Nhá Chica. Em 1991, Francisca de Paula de Jesus recebeu o título de Serva de Deus, concedido pela Congregação pela Causa dos Santos.  Era só o começo.

O processo de Beatificação

Mas era preciso um milagre! E ele existe, como tantos mais existem, por sua intercessão.  Moradora de Caxambu, cidade vizinha a Baependi, a devota cujo o milagre atribuído à Serva de Deus foi reconhecido pela Santa Sé Apostólica, dedica sua  vida a este testemunho. Em 1995, a professora Ana Lúcia Meirelles Leite tinha um grave problema no coração que só seria curado por intervenção cirúrgica. Sua fé em Nhá Chica desafiou a ciência, e dezenas de exames clínicos em diferentes hospitais, atestam, até hoje, que Ana Lúcia foi curada sem a operação que já estava programada, em São Paulo. 

Em 1998 foram reconhecidos os restos mortais da Serva de Deus, na presença de autoridades eclesiásticas, entre as quais nosso amado Pastor e Pai, Sua Excelência Reverendíssima Dom Diamantino Prata de Carvalho, DD. Bispo da Diocese da Campanha, que prestou declarações sobre o "odor de rosas, o perfume da santidade" que emanava de seu túmulo,  no interior da Igrejinha construída pela própria Nhá Chica ao longo de 30 anos. Todos os documentos foram apresentados à Biografia Documentada de Francisca de Paula de Jesus, Nhá Chica, e entregue à Causa dos Santos, cuja publicação foi concluída em 2001.

10 anos se passaram até que centenas de documentos fossem analisados pelas diferentes comissões de Cardeais, Teólogos e Médicos da Santa Sé Apostólica. Na manhã do dia 14 de janeiro de 2011, o Sumo Pontífice Bento XVI, aprovou as virtudes heróicas de Nhá Chica, declarando-a, naquela data, Venerável!  
E, a 28 de junho de 2012, o Papa Bento XVI assinou o decreto de sua Beatificação, para alegria de milhares de fiéis.

Os caminhos da história

Mas 118 anos antes, um médico do Rio de Janeiro antecipou as declarações da Santa Sé. Dr. Henrique Monat publicou, em 1894, uma obra sobre o parque das águas de Caxambu, e dedicou um capítulo inteiro àquela que, em toda a região, já se fazia notar pelo bem que semeava em comunidade. Monat prenunciava que Nhá Chica seria reconhecida "santa"!

Intrigado com o fato de que muito se ouvia dizer de uma mulher que “curava doenças”, o médico quis conhecer sua "concorrente". Mudou o seu roteiro de viagem e foi até a casa humilde de dona Francisca de Paula de Jesus, então num bairro pobre de Baependi. As palavras registradas por Monat, no português arcaico do século XIX, traduzem Nhá Chica ainda em vida: “Nhá Chica é uma santa, dizem uns; uma modesta buenadicha, asseveram outros. É simplesmente uma pobre mulher analphabeta, uma fiel serva de Deus cheia de fé, disse-me o Rev. Vigário” (àquela ocasião, Monsenhor Marcos Nogueira). E o médico publicou aquela que seria a mais conhecida fala de Nhá Chica: “É porque eu oro com fé [...] Eu rezo a Nossa Senhora, que me ouve e me responde”.  

A vida de santidade da leiga Nhá Chica inspirou o homem das ciências a terminar o capítulo com uma feliz anunciação: “Há quem já anteveja sua beatificação e ulterior canonização. Santa Francisca de Baependy! E por que não? Porque é pouco versada em política, em astronomia, em metrificação? Outros santos, menos milagrosos, foram mais pobres de espírito. Santa Francisca de Baependy, ora pro nobis! Amen”.

A filha de Nossa Senhora da Conceição 

Órfã aos 10 anos de idade, humilde e analfabeta. Francisca de Paula de Jesus se parece com inúmeros brasileiros. Devota fidelíssima de Nossa Senhora da Conceição, a quem tratava por “Minha Sinhá”, Nhá Chica dedicou-se  a construir, no terreno próximo à casa simples onde viveu, uma capela para a Mãe de Jesus. A obra levou 30 anos e foi erguida com doações de toda gente, pessoas agradecidas por suas orações. Ainda moça, Francisca já era chamada de "a mãe dos pobres"

Em testamento, registrou o desejo de ser enterrada ali, dentro da Igreja erguida com muita devoção. Jornais da época dão conta de que o corpo de Nhá Chica ficou insepulto por quatro dias - tamanha a quantidade de pessoas que quiseram se despedir -, sem o menor sinal de decomposição. Sua fama de santidade espalhou-se.

“Ó Deus, grandeza dos humildes, concedei-nos a sabedoria e o amor que inspirastes à vossa filha e serva Francisca de Paula de Jesus, para que seguindo os exemplos admiráveis de sua vida, nos dediquemos ao serviço do vosso Reino” - Dom Diamantino Prata de Carvalho.  

Milhares de romeiros do Brasil todo dirigem-se ao túmulo de Nhá Chica em retribuição às Graças alcançadas. No dia 05 de agosto de 2012, o Bispo da Campanha publicou um decreto elevando a Igreja de Nhá Chica(que não é Santuário Diocesano) à categoria de Reitoria Episcopal de Nossa Senhora da Conceição e nomeando como seu Reitor, o Reverendíssimo Senhor Pároco de Baependi, Padre José Douglas Baroni. Assim, nenhuma outra entidade civil, assistencial ou religiosa, poderá exercer qualquer administração sobre a Reitoria Episcopal ou sobre o Processo de Beatificação de Nhá Chica, cabendo toda responsabilidade à Diocese da Campanha, na figura de seu Pastor e máxima Autoridade Eclesiástica, Dom Diamantino. A medida visa aproximar ainda mais a leiga extraordinária, de seus devotos, combatendo firmemente qualquer pretensão de exclusividade sobre o legado de Nhá Chica, como equivocadamente se observou ao longo das últimas cinco décadas, naquela cidade.

Esta foi uma das primeiras medidas para definitivamente legar ao povo, o que foi erguido pelas mãos do povo de Deus. E agora, a Diocese da Campanha trabalha intensamente para cumprir os preparativos oficiais da Solenidade de Beatificação de Nhá Chica, prevista para o primeiro semestre de 2013.

Que a Venerável Nhá Chica interceda por toda a Diocese e comunidade. Nhá Chica, mulher leiga, é o exemplo para todos nós de obediência à vontade de Deus, de doçura à Santa Mãe Igreja e de discípula-missionária. Que ela abençõe a todos nós! Com a nossa própria futura Beata Nhá Chica, não cansemos de rezar: "Agora é a ocasião, valei-me Senhora da Conceição!".

 
 
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