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Senhor Abílio, o bem-aventurado!
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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Quando se fala das bem-aventuranças(cf. Lucas 6,17.20-26), o pensamento vai direto à primeira delas: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”. Realmente a vida de Senhor Abílio Pereira Carneiro, falecido na última quinta-feira, dia 14 de dezembro, na cidade de Varginha(MG), pode ser resumido nesta palavra “pobreza material” para ganhar a riqueza espiritual. O Senhor Abílio, português de origem, aportou ao Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Por volta da década de 30 mudou-se para Elói Mendes para acompanhar seus irmãos que nesta cidade já residiam. Seu Pai Manoel, das terras lusitanas, almejou muito que seu filho Abílio se estabelecesse na cidade de Elói Mendes, aonde constituiu bonita família com dona Maria Aparecida Ximenes, vivendo à sombra da bela Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, construída e reconstruída pelo Monsenhor José Umbelino de Melo Reis, venerando pároco local e maior líder daquela comuna, que logo enxergou no jovem Abílio o amigo e parceiro privilegiado para construir a Igreja-Templo, mas mais do que isso para construir a Igreja espiritual que todos nós carregamos em nossa vida.

Empresário promissor a fábrica de queijos Radiante foi o porto seguro de todos os pobres da cidade de Eloi Mendes. Não havia um pobre que batesse à porta da empresa e do escritório de seu presidente, Senhor Abílio, que não tinha as suas agruras atendidas. Seu Abílio entendeu bem a página do Evangelho de Lucas, das Bem Aventuranças, quando Jesus traça, nesta página, dois modos de conceber a vida: ou “pelo Reino de Deus” ou “pela própria consolação”, isto é, ou em função exclusivamente desta vida ou em função da vida eterna.

Senhor Abílio pautou a sua vida pela busca “do Reino de Deus”, ciente do significado da página evangélica: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus… Ai de vós, os ricos, porque haveis recebido vosso consolo”.

As duas categorias de vida e de mundo apresentadas pelo evangelista São Lucas pautou a vida de Abílio. Empreendedor, empresário, católico convicto e generoso, homem de simplicidade estrema procurou se filiar à categoria dos bem-aventurados que pertencem os pobres, os famintos, os que agora choram e os que são perseguidos e proscritos por causa do Evangelho. Abílio sabia que à categoria dos desventurados que desprezam os pobres e desvalidos pertencem os ricos, os saciados, os que agora riem e os que são tratados na palma da mão por todos. Tendo todo o conforto deste mundo nunca deixou que um pobre fosse afastado de sua mesa farta e generosa e de sua cozinha. Não havia mãos vazias em sua casa e nem famintos, porque a sua generosidade e de sua mulher eram exemplo vivos de desprendimento e bem aventurança.

Abílio compreendeu com perfeição que Jesus não canoniza simplesmente todos os pobres, os que padecem fome, os que choram e são perseguidos, como não depõe simplesmente todos os ricos, os saciados, os que riem e são aplaudidos. A distância é mais profunda; trata-se de saber sobre que coisa se fundamenta sua própria segurança, sobre que terreno está construindo o edifício de sua vida: se sobre aquele que passa ou sobre aquele que não passa. Por isso Senhor Abílio, o grande patriarca da caridade, escolheu o caminho da confiança inabalável em Deus, rezando o seu rosário todos os dias e participando com discreta piedade da Santa Missa, diariamente, para alimentar-se do alimento Eterno.

A vida do Senhor Abílio foi construída no entendimento da página das Bem-Aventuranças: o fim de sua vida não foi um convite a tornar-nos pobres, mas ricos! “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus”. Pensemos: pobres que possuem um reino, e o possuem já desde agora! Aqueles que decidem entrar neste reino são, com efeito, desde agora filhos de Deus, são livres, são irmãos, estão cheios de esperança de imortalidade. Quem não desejaria ser pobre desta forma? Foi esta pobreza, de ver no irmão o próprio Cristo, que moveu a vida e a ação neste mundo do Senhor Abílio, que na longa e abençoada vida de 99 anos, sempre procurou na liberdade de ser católico, de se fazer irmão dos pobres, a esperança da vida que agora contempla, com serenidade, com a certeza do dever cumprido e com a maravilhosa generosidade do seu largo e santo sorriso que se abre para Deus.

O sorriso de Deus acolhe o sorriso do Senhor Abílio Pereira Carneiro que é a síntese do sorriso de todos os pobres de Elói Mendes que ele atendeu e de todos os que choraram a sua ajuda e hoje se alegram por ter no céu mais um santo, nascido português e se feito eloiense para a maior glória de Deus e a santificação do povo.

Não choremos a ausência física de Senhor Abílio mais olhemos para o céu e contemplemos o sorriso do Senhor Abílio, o bem aventurado!



 
 
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