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Senhor Bom Jesus do Itacy
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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A festa da Transfiguração do Senhor, a cada ano, é celebrada no próximo dia 6 de agosto. Diz o Antigo Testamento que: “Mostra-me o Teu rosto, mostra-me a Tua face”. É o desejo de todo Israelita piedoso do Antigo Testamento; Moisés e Elias se esforçaram por contemplar a face de Deus.

Numa aplicação prática em nossos dias do anseio do povo hebreu, cativo no Egito, peregrino no deserto, ansioso às portas da terra prometida, somos convidados a deixar de contemplar por um instante o rosto dos apresentadores de televisão e dos artistas com os quais estamos acostumados a conviver diariamente, para nos concentrar na visão do rosto de Cristo que brilha através da Sua Páscoa da Ressurreição. “Deus de Deus, Luz da Luz”, afirma-nos o credo Nicenoconstantinapolitano.

Jesus Cristo é Luz da luz. A sua Face é Luz da luz. Ela é o reflexo da Luz incriada, o próprio Pai. Esta visão se deu no alto de um monte; foi no alto da montanha que o céu procurou naquele dia se unir à Terra. Três foram os apóstolos escolhidos para contemplar antecipadamente o que é sonho e esperança de todo cristão: a face de Deus, que brilha através da luminosidade da face de Cristo. Nós temos o direito de alimentar esse desejo; ele nada mais é do que o desejo do céu. Porque, o que é o Céu, se não a contemplação sempre mais profunda de Deus em Jesus Cristo?

Por isso, somos convidados a contemplar a face de Nosso Senhor Jesus Cristo, no alto do madeiro da Cruz, na bela e artística imagem do Senhor Bom Jesus do Itacy.

Conta a lenda que, às margens do rio Sapucaí, na comunidade chamada de Itacy, constituído de um pequeno núcleo de lavradores humildes, sede de um dos maiores distritos de Carmo do Rio Claro, uma imagem surgiu com seus condutores para outro lugar. Diz a historiadora Maria da Paixão Fernandes que “o casario humilde se agrupa ao redor de sua igreja, onde se encontra a tradicional imagem do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, de Itacy. Sua presença neste lugar vem com gosto de lenda pitoresca e original, de acordo com a versão dos antigos e cuja veracidade tem por fé os seus cabelos brancos”.

A historiadora precisa, dedicada ao resgate das origens dessa localidade e da devoção fervorosa do Senhor Bom Jesus nestas plagas, relata que, naquele tempo, havia uma ponte de madeira em Itacy, passagem obrigatória, seja de pessoas, boiadas, tropas de burros a caminho das metrópoles. E do empório que tinha junto a uma pousada próxima à ponte, os moradores avistaram aproximar-se uma jangada, conduzida por quatro canoeiros, trazendo uma grande caixa de madeira.

Em sua minuciosa descrição, Maria da Paixão Fernandes descreve a curiosidade dos moradores desses grotões e a alegria quando tomaram conhecimento que, naquela caixa, estava a imagem daquele que poderia ser o padroeiro daquela comunidade que se iniciava. O estratagema logo foi conspirado. Tal era o desejo de ter a bela imagem do Senhor Bom Jesus para sua veneração que cederam à fraqueza humana e roubaram-na. Conta-nos a historiadora: “E se é verdade que a ocasião faz o ladrão, não se fizeram de rogados e pagaram cachaça e mais cachaça aos canoeira até vê-los tombados, em profundo sono de alcoólatras; sem perda de tempo, desceram até o rio, arrebataram a imagem, esconderam-na, e em seu lugar, colocaram algumas pedras, repregaram a caixa e tudo ficou como antes. Foram-se os iludidos condutores da jangada mas aqui ficou, para a felicidade desta terra, uma das mais belas imagens de Cristo Crucificado, que atrai à Itacy de hoje centenas e centenas de devotos”.

Se é verídica ou não essa história do “achamento” da bela imagem, lá na margem do Lago de Furnas, dentro da imponente igreja dedicada ao Bom Jesus encontra-se a bela e original imagem do Senhor Bom Jesus do Itacy. Neste santuário diocesano, comunidade da Igreja Particular da Campanha, a cada 06 de agosto, mais de vinte mil fiéis se colocam como peregrinos do Bom Jesus para ver, contemplar e rezar diante de Sua veneranda imagem.

Diante do Senhor Bom Jesus podemos clamar: “Eis o homem”. Nas palavras do célebre Padre Vieira, “é o retrato da penitência e da aspereza”. Nas palavras do nosso século, é o retrato da conversão e da mansidão. Enquanto o festejado sacerdote jesuíta reportava-se com a nobreza lusitana ao momento histórico da Paixão, compelindo-a à mudança de costumes, reforma de vida e, mais ainda, a se entregar às mais enérgicas práticas de mortificação, se preciso fosse, para se unir ao sofrimento de Cristo, nestes dias de agosto somos convidados, também, à mudança de vida, mas para desfrutarmos, desde já, dos méritos da Paixão de Nosso Senhor e nos beneficiarmos da misericórdia que emana de seu coração, manso e humilde, onde nossas almas encontrarão repouso (Mt11,29).

Diante desta imagem deslumbrante, que nos remete ao sofrimento e à humilhação, vemos refletida nossa vida. Debruçamo-nos sobre nossas misérias e, em cada chaga que mirarmos na imagem do Senhor Bom Jesus do Itacy, encontraremos na sua contemplação o alívio para as nossas misérias e pecados.

Contemplemos, como peregrinos, seu olhar complacente que nos enlaçará e conseguiremos ouvir balbuciar aos nossos ouvidos o chamado: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Assim, sob o olhar generoso do Senhor Bom Jesus dos Aflitos do Itacy, peçamos ao Pai Eterno que pelos merecimentos de seu Filho possamos viver bem o Seu seguimento na SANTIDADE e na CARIDADE. Deixar o homem do passado e viver o presente na MISERICÓRDIA e COMPAIXÃO.

Seja, você também, um peregrino do Senhor Bom Jesus dos Aflitos.



 
 
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