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O valor de um amigo
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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“Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro” (Eclesiástico 6,14). Essa máxima que nos oferece a Sagrada Escritura tanto conforta nosso coração, quanto nos aterroriza ao olhar ao nosso redor e perceber quem são os verdadeiros amigos e os amigos de instantes apenas. Há amigos e amigos. Amigos sinceros, amigos levianos. Só a partir dessa reflexão poderemos conhecê-los. Quem os tem, ainda que um somente, possui um tesouro.

A analogia que o escritor sagrado faz com o tesouro é muito preciosa, tanto quanto o é o tesouro. Essa riqueza que supõe ser o afeto entre duas criaturas, alheia a qualquer parentesco ou amor conjugal, muito menos a interesses supérfluos, essa riqueza é desprendida, senão ao querer bem, a caminhar pari passu, um conduzindo ao outro, vivendo as alegrias e as provações, confortando-se mutuamente, buscando compreender e aperfeiçoar-se juntos.

E ao falar em amizade, acredito ser impossível abordá-la, e até mesmo vivê-la, sem espelhá-la na amizade cristã. Ah, como não buscar em Cristo o protótipo do amigo sincero, dedicado, presente em todos os momentos?

Na leitura dos Santos Evangelhos encontramos o Divino Mestre, prefigurado desde os Salmos como aquele que suportaria tudo que viesse de seus inimigos, mas se decepcionaria com o amigo que o traísse (Sl 55,14-15). Vemos Jesus, amigo de Lázaro, que chorou sua morte; encontramos Jesus, na última ceia, entre os seus, identificando aquele que lh’E entregaria às mãos dos algozes; deparamo-nos com o Jesus misericordioso que conquistava os amigos com um simples aceno de compreensão, de perdão; consola-nos o Jesus que se põe a caminho de Emaús como que antecipando o que viria a afirmar antes de sua ascensão, de que estaria com eles todos os dias de sua vida.

É esse o Divino Amigo que nos conforta na união transcendental, na meditação da Palavra, na participação da Eucaristia, permitindo-nos viver desse Mistério de Amor como lenitivo para nossa caminhada, amando-nos uns aos outros, na fraternidade cristã. É o Divino Amigo que em cada momento de nossa vida se manifesta de alguma forma, seja na satisfação das conquistas, seja na decepção das incompreensões, ou quando o temor pelo desconhecido nos toma, na fragilidade de nossa natureza... É n’Ele que encontramos conforto e remédio para essas feridas que a condição de filhos de Eva nos abre e se renovam a cada infortúnio, a cada vez em que conhecemos os verdadeiros amigos e concluímos que, a quem tanto devotamos, não passaram de usurpadores de nossa confiança, de nosso afeto, de nossas influências. São as limitações que agridem com virulência a amizade humana. Esses pseudo-amigos são, infelizmente, como as tábuas de salvação que nos fogem da mão na hora do naufrágio.

Louvo a Deus pelos amigos que tenho. Amigos sinceros, desinteressados, cordiais, presentes sempre em todos os momentos para festejarem comigo, como também para censurar-me com caridade, dispostos em ajudar-me a repensar minhas atitudes e a retomar as veredas da salvação.

Louvo a Deus pelas provações, pelas noites escuras, pela incompreensão dos homens, pelas difamações, pelas tristezas, pelas misérias, pois, só assim, fortaleço-me na experiência de uma intimidade mais intensa com Ele. Por isso que “quando estou fraco, então é que sou forte”(2Cor 12,10), porque sinto a presença de Cristo.

Deus seja louvado pelos amigos que me concedeu!



 
 
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