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Santa Rita, modelo de paciência
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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“Ó, amado Jesus! Aumenta minha paciência, na medida que aumenta meus sofrimentos!”

Reza a tradição que Santa Rita, tendo sofrido tantas dificuldades ao longo de sua vida, como esposa e mãe, ainda quis unir-se ainda mais a Nosso Senhor, por meio do sofrimento, após ter ingressado na Ordem de Santo Agostinho.

“Ó, amado Jesus! Aumenta minha paciência na medida que aumenta meus sofrimentos”, era a súplica que dirigia ao Divino Mestre durante seus longos instantes de meditação diante do Crucificado. Após anos de sofrimentos, ainda se dispõe a viver mais intimamente com Nosso Senhor, na contemplação dos mistérios de nossa redenção.

E eis que um fenômeno, que posteriormente se definiria como dádiva celeste, acometeu-lhe, afligindo-a mais ainda os incômodos. Era o mimo que Nosso Senhor lhe reservara para que ela pudesse exercer, com mais determinação, a virtude da paciência. Santa Rita, mais uma vez, suportou as agruras da dor e da humilhação, recolhida maior parte do tempo em sua cela, até que a enfermidade prendeu-a ao leito da agonia. Santa Rita, mais uma vez, mostrou-se como modelo de paciência.

Meus caros irmãos,

A paciência é uma das virtudes que se opõem aos vícios capitais, mais especificamente à ira. Ter a virtude da paciência é gozar de serenidade, é exalar a inspirações de paz, é viver a prática da caridade com a capacidade de perdoar por amor de Deus. Ser paciente é suportar as adversidades e resistir às influências advindas de tudo o que se propõe a corromper-nos da união com Nosso Senhor, a impedir-nos de haurirmos as graças que incessantemente emanam da Eucaristia, fonte de amor. Ser paciente é conseguir controlar-se, manter um equilíbrio emocional, calmo, ante os mais trepidantes imprevistos ou desafios.

Mais ainda, piedosos ouvintes, ser paciente é ter amor, uma compreensão larga, abrangente, é ter humildade para com suas limitações e tolerância com os erros alheios ou episódios inoportunos. Ser paciente é gozar da capacidade de suportar incômodos e dificuldades de toda a ordem, a qualquer instante. Enfim, ser paciente é confiar no Senhor e com o salmista cantar: “Junto de vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre; por vossa justiça, livrai-me” (Sl 30,2).

Apresenta-nos, pois, a hagiografia católica a heroína de Cássia, modelo de paciência, tendo vivido essa virtude em toda a sua amplidão unicamente por fidelidade ao Evangelho, por amor a Deus. Na Sagrada Escritura nutria-se da Palavra, meditando-a e guardando em seu coração os ensinamentos que haveriam de conduzi-la pelas sendas da santidade até à Perfeição, na comunhão eterna com Cristo na eternidade. Diante do Santo Tabernáculo entregava-se inteiramente à mercê de Deus, na aspiração da união mais íntima na Sagrada Eucaristia, viático que lhe assegurava a disposição necessária para a caminhada até ao Tabor de sua existência.

Jesus, no Evangelho, mostra-se paciente na missão de pregar sua boa-nova. O Mestre não hesitou em apresentar-se como o Messias prometido, a resgatar a mensagem dos profetas antigos, a indicar o caminho que conduziria os homens à formação do Reino de Deus. Pacientemente, Ele enfrentou as adversidades ao condenar os vícios e a omissão dos judeus, inclusive de seus chefes, censurando-os com veemência, e “todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca” (Lc 4,20).

Caríssimos irmãos,

O Evangelho viveu-o Rita desde jovem. Na convivência com seus pais relatam seus hagiógrafos a obediência, a dedicação, a observância de suas obrigações enquanto filha, procurando sempre atender as disposições paternas. É um exemplo que se desponta, desde os primeiros anos de sua vida, para nossa juventude tão displicente às vezes, insubordinada noutras, revoltada, insatisfeita, afeita aos prazeres mundanos, omissa para com sua condição de filha e educanda, ausente na vida familiar, na convivência comunitária, negligente nas práticas religiosas, distante de Deus.

A esposa modelar de Cássia se encontra na dedicação que Rita teve ao matrimônio. Sempre certa de estar fazendo a vontade de Deus, aceitou o sagrado compromisso do matrimônio com todas as suas alegrias, vicissitudes e tribulações; não se esmoreceu. Ao contrário, a cada descontentamento, unia-se aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e, resignada, aguardava o raiar da graça divina. O sol da compreensão e da misericórdia aquecia o leito conjugal a ponto de tocar o seu querido Fernando. E o caráter intempestivo que dominava os ímpetos do destemido cavaleiro foi se abrandando, até que encontrou no exemplo da esposa a luz que o guiou à compunção, à humildade e, enfim, à vida de oração, longe dos embates a que estava acostumado. Morreu, pois, o jovem Fernando certamente na graça de Deus. Seu desfecho brutal resultou do rancor que suscitou em tantos outros de seu tempo; foi a colheita de uma safra de desventuras que serviram como que para adubar os campos daquela bucólica região da Itália, onde posteriormente floresceu a concórdia entre as famílias.

Na dedicação de Rita ao seu Fernando vemos o exemplo da esposa dedicada, cuidadosa para com o governo de uma casa, inabalável no equilíbrio, capaz das mais sensatas ponderações, guardiã da tranqüilidade de uma casa e, acima de tudo, sempre confiante em Deus, atenta à voz do profeta Isaías: “É na calma que está a salvação” (Is 30,15). Sim, foi na calma que Rita foi conquistando a sua salvação e cativando o desejo de salvar-se naqueles que com ela conviviam.

 Meus caros irmãos,

Em sua grandeza, Deus Nosso Senhor provou-a mais uma vez, concedendo-lhe o dom da maternidade. Que ventura para uma mulher que, agraciada com o dom da gestação, acredita ser possuidora da manifestação divina e se entrega a essa missão com prontidão e desvelo. E de tal modo o fez que, na iminência de verem seus filhos, amargurados com o assassinato do pai, comprometerem a salvação de sua alma alimentando o desejo de vingança, Rita não vacilou e entregou-os a Deus Nosso Senhor. Preferia vê-los mortos para este mundo, mas assegurando-lhes o céu, a condenados ao fogo do inferno com as mãos manchadas com o sangue da desforra.

As súplicas ardentes da mãe temerosa pelo destino dos filhos ressoaram na eternidade e não tardou a morte colhê-los, de forma natural, preservando-os da desgraça. As lágrimas que rolavam pela face da santa mãe pela dor da separação umedeciam os lábios em prece, agradecendo a Deus por ter-lhe assegurado a salvação de seus filhos, desfrutando da bem-aventurança eterna. As lágrimas que rolavam pela face de Rita iam caindo pelo chão regando tão áspero caminho, onde ia brotando por entre os abrolhos as rosas que ornavam o altar de sua existência neste mundo.

Ah, meus caros, quantas mães, quantos pais, recolhem-se em seus aposentos para não verem a que horas os filhos saem ou cheguem a casa! Quantas mães, quantos pais, animam os filhos às diversões mundanas, e não lhes incitam à prática das virtudes aos compromissos para com a Religião! Quantas mães, quantos pais, regalam os filhos com o conforto e com os prazeres efêmeros do mundo, sem indicar-lhes as diferenças existentes entre os homens, principalmente as sociais, ensinando-lhes a partilhar aquilo com Deus nos provê, seja a sabedoria, o amor, o alimento! Em Santa Rita temos, pois, o exemplo para as mães que querem construir o seu lar à luz da Palavra, aquecida com o fogo abrasador do Espírito Santo, na certeza de estar construindo um lar cristão, um santuário onde o amor entre os seus membros seja um constante cântico de louvor a Deus.

 Vieram-lhe, ainda, mais provações.

Era a famigerada noite escura na vida dos santos, em que a frieza espiritual atira no ermo de um infindo universo sem sentido as mais puras. É o crisol de Deus onde se apuram a confiança e a fidelidade da alma devota que, ao mínimo sinal, corre qual criança indefesa ao regaço da mãe. À mais singela manifestação divina, eis que um sorriso se abre, os olhos se levantam, o coração palpita de alegria no Senhor. E se confirma o que a mística Teresa D’Ávila num de seus primorosos poemas tão bem traduz: “Nada te turbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, a paciência tudo alcança; quem a Deus tem, nada falta: só Deus basta”.

Tomada pela determinação e pelo espírito de obediência e, mais uma vez, de resignação reergueu-se do leito do desânimo e pôs a caminho, até que seu mais ardente desejo se efetivasse: entregar-se inteiramente a Deus.

Recebida na Ordem Agostiniana, Rita viveu o resto de sua vida entregue à oração e às obrigações que a vida comunitária lhe pedia. Foi um modelo naquela casa, não pela a atenção que suas exaltadas virtudes poderiam atrair, mas pela humildade, na prática da caridade e na alegria de estar fazendo a vontade de Deus. Aquela que foi chamada de “a rosa do jardim de Deus” exalava o mais suave a agradável perfume, conduzindo com seu exemplo a todos que dela se apresentavam até o altar, onde Nosso Senhor permanece vivo entre nós, em corpo, sangue, alma e divindade.

Por fim, no auge da contemplação, tendo avançado os mais elevados graus da intimidade divina, eis que Divino Esposo sela essa união perene de amor e de devotamento permitindo-a participar um pouco de seu sofrimento. Da fronte do Crucificado desprendeu-se um espinho que foi ter na fronte de Rita o alvo desse gesto de amor. Ora, quem ama partilha com a pessoa amada o que tem de mais precioso; o que Nosso Senhor tem de precioso é o sofrimento com o qual redimiu a culpa original, por isso quis oferecer à sua devotada esposa esse mimo que selava a união etérea numa antecipação da bem-aventurança eterna. Por isso o saudoso Papa João Paulo II afirmou que, “este sinal do espinho, chaga, [na fronte de Santa Rita] foi mais do que um sofrimento, foi a prova de sua participação na Paixão de Cristo”.

Piedosos irmãos,

Tenhamos, pois, em Santa Rita, “o anjo de Cássia”, o exemplo para nossa vida. Que ela, por meio de sua constante intercessão junto de Deus, que teve a ventura participar do sofrimento de Seu unigênito Filho pela nossa redenção, implore a misericórdia de Deus para tantos que se permitem cair pelo caminho, ao distanciar-se da vida de oração e de união com Ele por meio da Eucaristia, e no amparo da misericórdia possam prosseguir pelas sendas da santidade até a salvação eterna.

Peçamos a constante intercessão de Santa Rita para tantas esposas e mães que, desatentas aos seus compromissos, ou açodadas com tantas obrigações que o mundo lhes impõem, acabam descurando de sua casa e de seus filhos. Que o zelo para com o estado que Nosso Senhor lhes reservou seja assumido com alegria e disposição em tudo fazer para que se estenda por todo o mundo o Reino de Deus.

Que o amor acendrado por Deus, a busca de uma constante união com a Sua santíssima vontade e a resignação ante os seus desígnios seja um estímulos para todos os que se entregam à vida religiosa. A humildade, a caridade e o desprendimento sejam as rosas em nossa existência a exalar e inebriar de amor por Deus a tantos que conosco conviverem, desejando assim sempre mais ter a Deus.

Enfim, para todos os cristãos, especialmente os fiéis devotos de Santa Rita, que ela nos seja o mais lídimo modelo de paciência. Paciência em Deus para aguardar o tempo oportuno para nossos empreendimentos; paciência na convivência em família, na trabalho e na comunidade; paciência em esperar que Deus nos sinalize o que quer de nós. Enquanto isso, vamos vivendo segundo o Evangelho, na caridade fraterno, no amor em Cristo.



 
 
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