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ECCE HOMO – Bom Jesus do Livramento
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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Piedosos irmãos e irmãs,

“Ecce homo” (Jo 19,5)

Ecoa desde há dois mil anos a perversa apresentação de Pilatos, no Pretório, à turba indecorosa, do Divino Salvador: “Eis o homem”.

Na contemplação desta belíssima imagem do Senhor Bom Jesus do Livramento, já não é a tirania dos hebreus, nem tampouco a ignomínia com que tratam os romanos a Nosso Senhor, quem no-Lo apresentam. Muito ao contrário, é a misericórdia que nos atrai ao alto destas alterosas para nos unir ao Mistério de Amor, legado perpétuo da Caridade Divina.

“Eis o homem”. Nas palavras do célebre Padre Vieira, “é o retrato da penitência e da aspereza” [1*] . Nas palavras do nosso século, é o retrato da conversão e da mansidão. Enquanto o Crisóstomo português reportava-se com a nobreza lusitana ao momento histórico da Paixão, compelindo-a à mudança de costumes, reforma de vida e, mais ainda, a se entregar às mais enérgicas práticas de mortificação, se preciso fosse, para se unir ao sofrimento de Cristo, hoje exortamos-vos, também, à mudança de vida, mas para desfrutarmos, desde já, dos méritos da Paixão de Nosso Senhor e nos beneficiarmos da misericórdia que emana de seu coração, manso e humilde, onde nossas almas encontrarão repouso (Mt 11,29).

Diante deste ícone do sofrimento e da humilhação vemos refletida nossa vida. Debruçamo-nos sobre nossas misérias e em cada chaga que mirarmos na imagem do Senhor Bom Jesus, encontraremos na sua contemplação o alívio para as nossas. Seu olhar complacente nos enlaçará e conseguiremos ouvir balbuciar aos nossos ouvidos o chamado: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Esta é a mensagem que nos transmite esta imagem do Senhor Bom Jesus do Livramento, preciosidade da arte-sacra colonial, envolvida de mistérios e de misticismo, atraindo milhares de peregrinos a este santuário.

Mas de que vale toda essa beleza? Que importa a incontida afluência de fiéis a esta colina? Para que todo o aparato que se dispensa à celebração desta festa, se não existe o propósito de emenda? Se não se permite abrasar o coração pela misericórdia de Deus? Se não se busca, pelos seus atos, consolar o coração ultrajado de Nosso Senhor?

É porque falta a mansidão. Estão os homens entregues às paixões do mundo, submissos aos ímpetos da carne, vassalos do demônio.

Sim.

Minhas palavras não são brados eivados de um radicalismo ortodoxo, mas a constatação do que vemos.

Poderia, num lançar de olhos, desde aqui, enumerar-vos dezenas de exemplos. Seria, porém, uma precipitação colérica – atitude, aliás, contrária àquela segunda bem-aventurança ditada por Jesus – e lançar-me-ia também à leviandade dos conceitos, sem, antes, perscrutar o íntimo de cada um que, ainda que por causas segundas, vem tributar, de alguma forma, sua homenagem ao Senhor Bom Jesus do Livramento.

Não poderia deixar de alertar-vos para os perigos que esta caminhada nos proporciona.

Existe uma comparação antiga que hoje se nos torna oportuna: a vida, uma peregrinação; nossa família, a comunidade em que vivemos, uma caravana; o destino, a Pátria Celeste, a contemplação eterna.

No pequeno percurso que os piedosos romeiros fazem até chegar ao santuário podemos meditar juntos esse trajeto. Pelas ruas que caminhamos, nestes dias de festas, diversos atrativos chamam-nos a atenção. São pessoas passando de um lado para o outro; são guloseimas atraindo-nos pela criatividade de sua confecção ou pelo aroma a exalar-se; são as quinquilharias e toda espécie de entretenimento comercializado. A cada passo, algo nos prende a atenção, e esse trajeto pode se tornar demorado, custoso, dispendioso.

Assim é a vida. Ao longo de nossa existência são muitos os atrativos que tentam nos seduzir. Os vícios capitais, observem, são os salteadores de nossa alma, a partir da ambição, apanágio dos filhos de Eva. Se se entrega ao primeiro, sucedem-se os outros, cada um a seu tempo, até que nos desnorteamos, como que empurrados de um lado para o outro, pela concupiscência da carne, dos olhos e a soberba da vida. Tornamo-nos joguete das tentações.

“Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26,41).

Entretanto, enquanto caminhamos pelas ruas, rodeados pelos atrativos das barraquinhas, sempre olhamos adiante e se descortina ante nossos olhos este santuário. Quão delicioso deverá ser o anelo de apressar-se para aqui chegar. É este, sim, o desejo que deve tomar cada um nessa peregrinação, de aqui chegar para prestar o seu tributo de ação de graças ao Senhor Bom Jesus do Livramento; buscar remédio para suas enfermidades; unir-se a Ele pela Sagrada Eucaristia.

“Eis o homem”.

É na Sua revelação a Santa Margarida Maria que conheceremos seu anseio com relação ao sentimento dos homens: “Eis o Coração que tanto amou os homens; que em nada se poupou até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor. E em reconhecimento não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que têm para comigo neste Sacramento de Amor”.

“Eis o homem” que, para redimir-nos da decadência de nossos primeiros pais, assumiu a nossa humanidade, padeceu morreu e ressuscitou, resgatando a dívida para com o Seu Eterno Pai, restituindo-nos a graça.

“Eis o homem” que, não bastasse isso, entregou-se eternamente a nós pelo Sacramento da Eucaristia, lembrando que, como diz Santo Afonso Maria de Ligório, se preciso fosse, estaria Ele até nossos dias suspenso no patíbulo da cruz, para que nos salvemos, tamanho o amor que tem por nós. Entretanto, continuamos a nos entreter com as vicissitudes da vida mundana, entregando-nos às ambições, às paixões, à concupiscência.

“Eis o homem”, meus caros. Já não é Pilatos quem vo-lo apresenta, mas um dos discípulos do Divino Redentor, embora indigno, que peregrina convosco e vem também se inebriar da misericórdia que emana do Santo Tabernáculo, na meditação desta devoção tão cara do bom povo de Liberdade, de toda a nossa Arquidiocese, da Santa Igreja, enfim, que nos concede privilégios especiais nesta ocasião do Jubileu.

Meus irmãos e minhas irmãs,

Propõe-nos nosso amantíssimo arcebispo, Dom Eurico dos Santos Veloso, concedendo-nos o privilégio de Indulgência Plenária neste Ano Paulino, ao visitarmos este Santuário, lançar mão das admoestações do Apóstolo Paulo. Em nossa caminhada, tenhamos sempre os olhos fitos no Pretório, onde se apresenta a figura que nos representa o Senhor Bom Jesus do Livramento, para sermos verdadeiros filhos na fé (1Tm 1,2).

Pela graça do Batismo, tornamo-nos cristãos e, como tal, devemos ser espelhos das virtudes cristãs para nossos irmãos, portanto, evangelizadores. Estejamos continentes para não ceder às tentações. Seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza (1Tm 4.12), assim o Apóstolo dos Gentios advertia a Timóteo; assim sua palavra nos convoca nestes dias em que o relativismo, o pragmatismo e a licenciosidade direcionam a corrupção da moral e da ética. “Busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão” (1Tm 6,11), tornando um exemplo, “fazendo boas obras” (Tt 2,6). “Guarde este mandamento imaculado e irrepreensível, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Tm 6,14).

Para isso, há-de se ter um zelo especial com a vida de piedade. Não nos basta vir a este Santuário, saldarmos as dívidas advindas dos momentos difíceis, prometendo dezenas de terços e quilos de cera, se não nos fortificarmos “na graça que há em Cristo Jesus” (2Tm 2,1). “Exercite-se na piedade. O exercício físico é de pouco proveito; a piedade, porém, para tudo é proveitosa” (1Tm 4,7-8).

Zelemos pela vida de oração. “Orar é conversar, é dialogar com Aquele que sabemos que nos ama”, nos diz Santa Teresa d’Ávila. Retiremo-nos, pois, para junto do Sacrário e ali depositemos nosso coração, com todas as suas angústias, incertezas, decepções, bem como ofereçamos nossas alegrias, satisfações, realizações Àquele Divino Amigo que, como se Lhe refere Santo Agostinho, “vai nos escutar sem jamais rir-se ou zombar de nós”. Silenciemo-nos para ouvir Sua voz e, depois, devidamente preparados espiritualmente, desfrutado da confissão sacramental, corramos ao seu encontro na Sagrada Eucaristia, unindo-nos inteiramente a Ele.

Vigiemos o maligno que, incansável, nos ronda. “Conserve-se puro” (2Tim 5,22), é ainda a Timóteo que São Paulo fala, advertindo-o a fugir “dos desejos malignos da juventude” (2,22). É a advertência que se nos faz premente, neste mundo que vai se derrotando pela sensualidade. Continência – insisto - é a palavra de ordem. “Seja moderado em tudo” (2Tm 5,23) é o comando paulino para alcançarmos o equilíbrio necessário, inspirados pelo Espírito Santo, guiados pela Palavra de Deus, alimentados pela Santa Eucaristia.

Unidos a Nosso Senhor, pelos sofrimentos padecidos por Ele, teremos tranqüilidade para suportar as adversidades, as tentações e as provações que nos advirem. “Suporte os sofrimentos” (2Tm 4,5). Com resignação e espírito elevado, tiraremos inúmeros proveitos dessas ocasiões especiais de solilóquios com a cruz, confiantes na presença constante dEle. “Se não cedeste, em nenhum momento, às tentações, é porque durante todo esse tempo estive aí, dentro do teu coração”, disse Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena, após sentidos momentos de desolação. Nesses instantes, portanto, é que poderemos experimentar, com maior eficácia, a presença amiga de Cristo junto de nós. “Por isso mesmo, Vossa Majestade tem tão poucos amigos”, teria respondido Santa Teresa d’Ávila a Nosso Senhor, quando lhe disse serem estes os mimos que reserva aos Seus amigos...

“Eis o homem”, é o Papa Bento XVI que nos apresenta o Cristo, especialmente aos jovens, muitos perdidos neste mundo hedonista e paganizante: “Como cristãos – nos alerta o Papa -, encontrai-vos neste mundo sabendo que Deus tem um rosto humano: Jesus Cristo, o ‘caminho’ que satisfaz todo o anseio humano e a ‘vida’ da qual somos chamados a dar testemunho, caminhando sempre na sua luz. (...) O nosso mundo está cansado da ambição, da exploração e da divisão, do tédio de falsos ídolos e de respostas parciais e da mágoa de falsas promessas. O nosso coração e a nossa mente anelam por uma visão da vida onde reine o amor, onde os dons sejam partilhados, onde se construa a unidade, onde a liberdade encontre o seu próprio significado na verdade e onde a identidade seja encontrada numa comunhão respeitosa. Esta é obra do Espírito Santo. Esta é a esperança oferecida pelo Evangelho de Jesus Cristo. Foi para dar testemunho desta realidade que fostes regenerados no Batismo e fortalecidos com os dons do Espírito no Crisma. (...) ‘Sereis minhas testemunhas… até aos confins do mundo’ (Act 1,8)”, exortava Bento XVI em Sidney, na Austrália, na Jornada Mundial da Juventude este ano.

“Eis o homem”, sou eu quem vo-Lo apresenta hoje.

Correi!

Vinde vós todos que estais aflitos e Ele vos aliviará.

Com a intercessão de Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças e Co-redentora, haveremos de chegar a este Santuário e desfrutar dos privilégios que a Santa Igreja nos concede neste Jubileu, numa antecipação do gozo eterno em que viveremos na Jerusalém Celeste, preservados da corrupção mundana por meio da entrega total a Deus, numa vivência contínua e eficaz da Palavra, participando da Sagrada Eucaristia.

“Eis o homem”, sois vós que deveis apresentá-Lo também ao mundo, como evangelizadores na família, no trabalho, na comunidade.

[1*] - Sermão da Sexagésima, cap. IV, 165.



 
 
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