Colunas
 
Verdade e Desenvolvimento
Por: DOM PAULO MENDES PEIXOTO
BISPO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - SP
www.bispado.org.br
 
Leia os outros artigos
 

Na Carta de Bento XVI, "Caritas in veritate", aparecem duas frases que são fundamentais para o entendimento e o significado da verdade: "A caridade nunca existe sem a justiça, o dar ao outro o que é dele"; a outra frase diz: "Não posso dar ao outro o que é meu sem dar a ele o que é dele". É a contextualização da justiça, que é inseparável da caridade e faz parte de sua identidade, caracterizada pela verdade.

A caridade está acima da justiça e se move na direção da gratuidade, da misericórdia e da comunhão. É a manifestação do amor de Deus nas relações humanas, que leva em conta o bem comum e as exigências da justiça e da verdade. Isto edifica a convivência entre as pessoas e constrói a cidade universal de Deus. O caminho da globalização tem que atingir todo o social.

Ao falar da caridade na verdade, o Papa tem em vista o verdadeiro desenvolvimento, com o ardor da caridade e a sapiência da verdade, tendo como meta o homem todo e todos os homens. Sabemos que não é fácil amar de verdade o mundo em crescente e incisiva globalização. Num amor que vence o mal com o bem e eleva as pessoas. Amor iluminado pela razão e pela fé.

A missão da Igreja é contribuir com o verdadeiro desenvolvimento, mas não tem técnica para oferecer. Ela tem uma ação concreta a favor da verdade, levando as pessoas a terem garantia de liberdade. Esta fidelidade à pessoa humana é uma tarefa irrenunciável sempre. Seria trair sua missão não lutando pela liberdade e pela realização plena das pessoas na verdadeira caridade.

A doutrina social da Igreja tem sua base na Palavra de Deus e nos documentos sociais, principalmente na "Rerum Novarum" de Leão XIII, na "Sollicitudo rei socialis" de João Paulo II, e na "Populorum Progressio" de Paulo VI. Neles já aparece a expressão "fidelidade à caridade e à verdade" como itinerário de desenvolvimento. Mesmo que a cultura hoje seja diferente, as raízes da fé são as mesmas, antigas e novas.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) dizia que a Igreja serve o mundo em termos de amor e de verdade. Procura promover as pessoas para usufruir um regime de liberdade, mesmo sendo impedida por proibições e perseguições. Tem em vista perspectiva de vida eterna, não só de ter. Ela tem uma visão transcendente da pessoa e olha para a sua total integridade, que ultrapassa o simples ter.

Um desenvolvimento sem Deus acaba sendo desumanizado e excludente, fazendo uma história de injustiça, sacrificando a prática da verdade. No desenvolvimento humano deve estar a atitude cristã que humaniza e diviniza. Não podemos ser levados por uma política de desenvolvimento utópico e ideológico, sacrificando a qualidade ética e humana.

A orientação técnica não é suficiente para um verdadeiro desenvolvimento porque, com facilidade ele separa a apreciação moral com responsabilidade. Existe um forte laço entre ética da verdade e ética social, o que não pode estar separado do avanço tecnológico. O que deve estar em vista é a vida humana e isto não acontece sem justiça e paz, sem promoção do ser humano. É nisto que está fundamentada a doutrina social da Igreja, preocupada com o autêntico desenvolvimento.



 
 
xm732