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A lei do amor aniquila a violência
Por: DOM ORANI JOÃO TEMPESTA, O. Cist.
ARCEBISPO METROPOLITANO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, RJ
 
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A primeira leitura (Dt 6,2-6) nos leva refletir como os Israelitas se sentiram “poderosos” após receberem o Decálogo através de Moisés no Sinai. Eles sabiam que outras nações eram muito mais poderosas, mas se consideram os soberanos. Em sua oração matinal os judeus sempre continuam repetindo: “Bendito sejas tu, Senhor, que nos escolheste dentre todas as nações e nos deste a tua lei”. Com isto legitimam sua posição diante das outras nações.

Em seguida vem um olhar sobre “o temor a Deus” (vv. 2-4) Temer a Deus não significa “pânico”. Deus não trabalha na polícia e muito menos nos grupos de violência como vemos pela televisão hoje. Temer a Deus significa abertura da mente e do coração para compreender e fazer a sua vontade. Assim se realiza o discernimento humano sobre os desígnios e projetos de Deus.

Não se pode esquecer a máxima utilizada pelos judeus até hoje: “Shema Israel... ou seja, ‘Ouve Israel, o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é um só” (v. 4). O cuidado está não na ignorância a Deus, mas no gesto de se prostrar diante de inúmeros deuses criados a cada dia e que levam ao fundo do posso o coração humano apenas preocupado com o consumismo e se esquecendo do relacionamento recíproco e criativo entre os seus. Construir uma leveza relacional (não é leviandade) é ser testemunha do amor. Por isso o discurso muda. Não se afirma mais o termo “temor”, mas sim o “amor”. “Amarás o Senhor teu Deus” (v. 5).

Entender o amor não pode se resumir apenas ao sorriso, abraço, beijo, manifestações de afeto. Tudo isto é muito importante nas relações interpessoais. Mas viver o amor é  identificar-se com o projeto divino do Reino manifestado e inaugurado por Jesus Cristo. Todas outras manifestações imponentes de “amor” correm o risco de estar envoltas de “paixões” passageiras.

A Segunda Leitura (Hb 7,23-28) nos apresenta a relação do autor desta perícope com o comportamento dos judeus convertidos ao cristianismo. Eles ainda carregavam uma grande saudade pelos rituais judaicos: sacrifícios de animais e frutos da terra como expiação dos pecados. Havia muitos sacerdotes no templo, porque pela morte, os ritos deveriam ser continuados por outros sacerdotes. E o autor mostra à comunidade que Cristo é sacerdote eterno e que intercede por todos junto ao Pai (v. 22-25). Os ritos litúrgicos, lindos paramentos são importantes nos dias de hoje, mas nunca devemos esquecer que a humildade deve ser a marca cristã. Cristo não oferece sacrifícios como os sacerdotes judaicos faziam: ele mesmo se doa em sacrifício por toda humanidade.

Vamos agora refletir o Evangelho deste Domingo (Mc 12, 28-34) Vamos primeiro olhar para o contexto: Jesus já está há três dias em Jerusalém. É observado pelos sacerdotes, escribas e anciões. Muitos se dirigem até ele com perguntas. Circula pelo templo e o questionam desde aspectos religiosos até os políticos. Até ali Jesus já tinha inclusive expulsado os vendilhões do templo (Mc 11, 15-25). Isto foi mais um fato marcante para que os sacerdotes e escribas decidissem alguma forma de prendê-lo e eliminar. A forma como Jesus se relacionava incomodava o poder deles. Cria-se um ambiente polêmico: o discurso de Jesus anunciava que o “Reino de Deus não estava longe”.

Um dos escribas se aproxima de Jesus e faz um questionamento que não é maldoso: “Qual o primeiro dos mandamentos?” Este questionamento contrasta na comparação das 613 leis que os judeus obedecem. 365 delas eram os pontos negativos, portanto só proibições. 248 delas eram ligadas ao aspecto positivo. Porém a observância de todos mandamentos deveria ser considerada no mesmo comportamento. Só as mulheres ficavam dispensadas dos 248 mandamentos.

Então, como se relacionar com tantas leis [em comparação com o decálogo dado a Moisés]? Pode-se reduzir tudo numa lei só? Jesus então responde ao escriba: “Ouve Israel. O Senhor nosso Deus é o único Senhor: amarás, portanto, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças”. Mas Jesus recupera um lembrete que vem lá do Primeiro Testamento (Lv19, 18): “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Observe, caro leitor, que Jesus acrescenta a palavra “espírito”, não aplicada no livro de Deuteronômio (Dt 6,4).

Por isso “amar a Deus” é total adesão ao seu projeto apresentado pelo Filho humanado. O homem não pode deixar-se dividir entre as coisas de Deus e as dos “deuses”: contaminação dos que ensinam ser individualista e de não amar o próximo. Portanto amar a Deus e ao próximo deve ser o único e mesmo comportamento e testemunho nosso. Posso e devo dedicar meu tempo para o trabalho, amigos, família, hobby, esportes, etc., mas nada disto deve permutar o valor ao amor a Deus que também se realiza nestas pessoas.

Com isso, percebemos também o que João nos lembra: “que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,17). Por isso dá para entender que Jesus não fez o questionamento de segui-lo daqui em diante: “Vem e segue-me”, afinal Ele já tinha chegado à Jerusalém. Tantos outros discípulos o seguiram desde a Galiléia, assim como o cego Bartimeu que abriu os olhos para ver as maravilhas do Reino de Deus. Mas em Jerusalém, onde se encontravam os depositários da sabedoria judaica, para estes faltava ver o momento final deste que perseguiram, flagelaram e o mataram. Daí sim, uma vez que reconhecerem seu ensinamento saberão o seguir transmitindo que a lei é o amor!

As vezes é necessário relembrar onde foi nossa “primeira Galiléia”, onde o começamos seguir... para não se deparar com ele apenas na “chegada” da Jerusalém celeste. Um bom domingo a todos e rezemos para que o ensinamento de Jesus sobre o amor ao próximo diminua a onda de violência que acompanhamos pelos meios de comunicação social nestes dias. Deus abençoe a todos!


 
 
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