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Eu obedeço para entender e não entendo para obedecer
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
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A virtude da obediência é uma das mais fascinantes no contexto do Cristianismo e a mais dolorida de se exercitar por quem não a compreendeu em seu pleno sentido. Obedecer, segundo os latinos, seria “ob-audire”, isto é, “ouvir àquele que fala”. Essa definição etimológica nos sugere então que só é possível ser obediente quando nos dispomos ouvir atentamente àquele que nos fala.

Já o verbo entender é desdobramento de toda uma capacidade especial para a escuta interior daquilo que nos é proposto. Ainda no universo latino, encontramos que o entendimento está o tempo inteiro inclinado para aquele que deseja “entrar na tenda”. Isso mesmo! Já me explico: eu o entendo à medida que me permito entrar em sua tenda, adentrando no interior daquilo que você me fala para deste modo compreendê-lo, amá-lo, aceitá-lo... Não é possível fazer nada disso ficando “à porta da sua tenda”, pois agindo assim não poderei entendê-lo perfeitamente e possivelmente ficarei à margem daquilo ao qual sou chamado a fazer.

No cenário do mundo secular os holofotes sempre se voltam para o entendimento em detrimento à obediência. Neste sentido, neste mesmo cenário somos levados a primeiro querer “entrar na tenda”, problematizar, perguntar para só então depois obedecer. Cena inversa, entretanto, encontramos no palco do Cristianismo, pois ali essa hierarquia assume outros lugares. Pela fé que abraçamos somos inclinados a perceber que nesta Escola de Santidade é preciso antes de tudo ter ouvidos de aprendiz, agir como discípulo e ouvir a voz d'Aquele que nos fala. E só depois desejar entender a razão da escuta e da obediência, o que muito certamente não será mais necessário.

Jesus quando se encontrava com qualquer pessoa, primeiro Ele lhes falava, lhes chamava, e estas se rendiam para ouvi-Lo atentamente, isto é, lhes obedecia. Resultado de tamanho fascínio é que elas entravam em sua tenda para entender todo seu Projeto de Amor. O recíproco também era verdadeiro, pois era desejo do Mestre conhecer bem de perto àqueles a quem Ele lançara um olhar amoroso. “Vinde após mim e Eu vos farei pescadores de homens. Eles nos mesmo instante deixaram as redes e seguiram-no” (Mc 1,18).

Bem sabemos das dificuldades em obedecer e entender os fatos e pessoas. Todavia, em tudo aquilo que nos é próprio do dia-a-dia esses dois verbos não podem ser conjugados dissociadamente. Eis um imperativo da nossa fé! Eis o caminho a ser trilhado em toda e qualquer vocação! É bem verdade que ele nos custará muito. Nosso desejo vai querer sempre primeiro entender e depois obedecer! Mas a exemplo de Maria, nesta hora “conservemos tudo em nosso coração” (Lc 2,19), e como bom discípulos que buscamos ser, pediremos ao Mestre que nos abençoe com sua graça naquilo que ainda nos falta. Ele cuida de tudo, pois, como dizia Santo Agostinho, diante de uma situação que nos exige a santa obediência e o dom do entendimento, “Deus só nos acrescenta aquilo que ainda nos falta”.



 
 
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