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A face da Compaixão
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
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Tenho percebido nos lugares que tenho a oportunidade de ir, nos rostos que me é possibilitado contemplar, o quanto o mundo tem pouco exercitado a compaixão. Diria que o resultado disso é porque talvez poucos tenham experimentado desta realidade que é tão própria do Sagrado, tão própria de Deus. Mas, qual o verdadeiro significado da palavra compaixão? Do latim temos compassione. Contudo, literalmente dizemos que compaixão significa “sofrimento padecido com”.

A experiência da compaixão faz com que Jesus possa “sentir conosco”. No grego a palavra usada para essa expressão é “sympathesai” (sentir com, sofrer com). É dela que provém nossa palavra simpatia. Jesus nos é simpático porque Ele é um de nós. Isso não é muito difícil de compreender quando tomamos alguns fragmentos bíblicos como vigas de sustentação desta simpatia. É interessante pensar assim quando encontramos, por exemplo, o leproso diante de Jesus lhe suplicando a cura. Ao que parece, a partir de um “olhar simpático” Jesus se compadece daquele leproso. Jesus o ama profundamente, porque quem ama cuida; não diminui o outro, se compadece. Quem cuida possui o “amor – com”: amor que combina, comunica, compartilha, completa, compreende, se compraz, se compadece. A partir desta imagem, percebemos que quem ama se arrisca e se lança no novo. Em Jesus, lançar-se no novo é ter como primeiro passo a compaixão.

Dentre tantas compreensões da tradução literal do grego para o português, encontramos: "ser tocado na entranhas". Jesus “vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). A vida inteira passaremos pelo processo da compaixão. Ora nos sentiremos tocados profundamente pela dor do outro, tal como Jesus face àquela multidão; ora experimentaremos Ele se envolvendo amorosamente conosco. Gosto de pensar também que é a partir da força deste amor, que o cego Bartimeu grita repetidas vezes: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim” (Mc 10, 46-52) Este pobre cego “vê com os olhos da fé” que  Cristo é capaz de se compadecer dele e restituir-lhe a visão.

Até aqui fica claro o quanto no cenário dos ensinamentos de Jesus, o Amor se faz o protagonista por excelência, e se traduz muitas vezes em compaixão. Jesus situa a “compaixão” como uma expressão particular e concreta de Deus que é Amor, e está a recordar-nos que o seu “olhar” pousa sobre os homens e torna-se compassivo para eles através de um amor que adquire muitas expressões. Isto fica claro também quando Jesus nos conta na Parábola do Bom Samaritano, que este homem é o único que “vê e se move de compaixão” (Lc 10,33) diante do espancado largado pelo caminho. É o amor no compasso da compaixão.

Acredito que jamais conseguiremos explicar com exatidão certas coisas que nos acontecem em nossa vida, e principalmente o que nos faz amar o outro. Todavia, por meio da compaixão fica fácil entender porque Deus está sempre a fitar o seu olhar amoroso em cada um de nós. Penso que esta é uma das mais belas formas d’Ele se traduzir em nossa história.



 
 
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