Colunas
 
A Humildade como sacramento do Amor
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
Leia os outros artigos
 

Cada vez mais tenho me convencido de que a arte de amar requer cuidados, e que por isso mesmo passa pelo exercício da humildade. De acordo com a Teologia Cristã, amar é dispor de si para o outro. Um dom sem igual. É construção que tem o poder de nos encantar e encantar o outro, quando sustentada pelas vigas de sustentação da humildade.

No processo do Cristianismo a atividade do amor está atrelada à imitação do Cristo, isto é, em nos assemelharmos à sua kênosis e, portanto à imensidade do seu Amor. Deve ser por isso que São Gregório sabiamente dizia que a “humildade é uma descida rumo às alturas do Amor.” De fato, é através da dinâmica destas duas virtudes que o Verbo se revela e visita nossa humanidade, tornando-nos capazes de amar. Capacidade singular que impulsiona o homem o tempo todo a contemplar o horizonte da alteridade no rosto e no coração do seu próximo. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” – (Jo 13, 34) – sugere Jesus ao término do lava- pés. “Dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, também vos o façais”. (ibid., 15). “Agir do mesmo jeito”, eis o imperativo. Baseado não na força de uma ordem, mas em virtude da natureza e impulso do Amor no qual fomos gerados.

É interessante perceber a riqueza de significados revelada minutos antes de deixar o mandamento do Amor, quando Jesus se inclina aos pés dos seus amigos para lhes lavar os pés. Dentre tantos significados traduzidos naquele cenário, evidenciamos o da humildade. Todavia, não no aspecto do serviço, o que seria pertinente, porém, como sinal redentor do Amor.

Ao inclinar-se para lhes deixar limpos dos fragmentos de poeira, o Bom mestre dirige-se ao “húmus”, à terra que se achava nos pés daqueles a quem tanto amava. Os latinos chamam esse gesto de “humilitas” – humildade. Com efeito, “humilde” tem sua raiz no vocábulo latino – “húmiles”- e a imagem de um servo inclinado à terra (húmus), amplia o seu significado. Com a simplicidade que lhe é própria, Cristo não atinge tão somente aos pés daqueles homens, atinge-lhes, no entanto diretamente o coração, envolvendo e amando-os em sua sacralidade e mistério de pessoa. Gesto que traduz a humildade como verdadeiro Sacramento do Amor.

O exercício do Cristianismo é isso. É convite constante pra estabelecermos em nossas relações uma bela “disposição ao outro”, por meio do sabor da humildade e das cores do Amor. Penso que dessa forma a gente amplia o horizonte de sentido de nossos amores, amizades, encontros... E porque não o horizonte de significado também da nossa Igreja. Parece trocadilho, mas deste modo, acabamos realmente “descendo às alturas” do coração do outro, tocando aquilo que ele tem de mais belo e encantador: a capacidade de amar e ser amado.



 
 
xm732