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Traduzindo Deus
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
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Hoje uma razão muito especial me fez pensar que o tempo todo somos convidados a “traduzir” Deus para as pessoas. Isso mesmo: traduzir o Sagrado é nossa missão, nosso discipulado. Traduzir é um verbo que tem raiz etimológica no grego μεθερμηνευω [methermêneuô], significando, pois, aquela ação capaz de nos levar ao conhecimento do que antes nos parecia obscuro ou impossível de compreensão.

Pois bem, já me explico porque somos então impulsionados pra tal dinâmica. O imperativo de traduzir Deus se dá quando percebemos que pelas avenidas da vida tantos corações parecem ter se cansado de acreditar num motivo que alimente suas vidas. Quando notamos o quanto de olhares já se perderam, quantos solos deixaram a sua sacralidade ir embora, e nisso minha gente muitos são os que também cristalizaram suas vidas em noites escuras e já não sentem mais motivos de contemplar o sol da existência por meio das cores e sabores da Ressurreição. Quantos vivos que estão mais mortos que aqueles que já adormeceram na Eternidade.

Aqui temos um caminho a percorrer, um caminho dado e traçado, um desejo a ser tornado real, tão real quanto o “Verbo que se tornou carne” ao traduzir o Amor Divino. Um caminho que se deu por duas vias: a de quem veio – o Verbo – e a de quem sempre vai – nossos corações, território humano no qual o Sagrado quis fazer morada. E neste itinerário a estrada assumiu beleza quando nos foi dado a Plenitude da Revelação. Nada mais precisa ser revelado. No entanto precisamos “traduzir” Deus. Precisamos comunicar Deus pra tantos quantos ainda não se permitiu sentar com Ele, ter um encontro pessoal.

Lembro que algumas vezes lá na escola a professora de língua estrangeira nos colocava pra traduzir textos e frases. Debruçávamos com todos os instrumentos necessários, dicionários, gramáticas, para que desta forma a tradução fosse a mais fiel possível ou o mais próximo daquilo que se propunha. Minha gente, nossa missão não é diferente. Parece-nos que o exemplo da escola é meio tolo, mas serve-nos de fio condutor para compreender que embora a Plenitude da Revelação já nos tenha traduzido todo o Amor do Pai, somos, no entanto configurados como seus fiéis colaboradores pra que esta tradução visite todos os corações humanos e possam ali fazer morada. Da mesma forma que um dia tivemos que fazer a tradução de um texto cuja língua parecia-nos desconhecida ou inacessível, somos, pois vocacionados o tempo todo a traduzir com nossas vidas e testemunhando por meio de nossas opções e escolhas o amor d’Aquele que nos atraiu para si.

Feliz foi Santo Agostinho ao dizer “Nihil volitum nisi precognitum est”, que nada é desejado se não for conhecido. O mundo busca um sentido, e nesta busca surge o desejo, e este último se dá pela via do conhecimento. Tudo é muito simples quando percebemos que Deus se deu a conhecer e se deixou encontrar pra desta forma ser desejado, buscado. Nossa missão portanto, mesmo com nossas limitações, é traduzir este conhecimento que nasce da nossa relação de amor com o Divino, pra que deste modo todos possam também desejá-lo.



 
 
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