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A espiritulidade quaresmal à luz da “Spe salvi”.
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
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Um novo tempo se descortina no cenário da Igreja nestes dias. Quando paramos pra pensar um pouco a respeito da QUARESMA, logo notamos a riqueza desse tempo litúrgico. Aliás, também percebemos a grande possibilidade que temos de restabelecermos nossa relação com Deus e com o “outro de mim”.

Gosto de pensar que a Quaresma é um tempo singular, no qual deitamos no chão da existência humana e levantamo-nos mais devolvidos, uma vez que havia muitas partes de nós esparramadas, caídas por aí... Essa dinâmica do deitar-se no chão e levantar-se outro, nos ajuda a viver com sacralidade o rito litúrgico das cinzas. Revela-nos nossas fragilidades e limitações, ao passo que também nos põe de pé, levando-nos a acreditar que ainda vale a pena ir adiante. Leva-nos a compreender que estamos em reforma. E que nesta reforma foi Deus mesmo quem “tirou a primeira pedra”. Não atirou. Deus não sabe atirar... Prefere tirar... Devolvendo-nos a nós mesmo a cada dia, surpreendendo-nos com medidas que não merecemos.

Nas minhas limitações conceituais opto por sacramentar tudo isso como Quaresma. Pelo menos foi uma experiência aproximada a essa, que fez um povo sedento de Deus caminhar 40 anos no deserto... Experiência que leva o Cristo a jejuar, inclinar-se em oração e “esperar” por 40 dias. Pois bem, é esta a espiritualidade experiencial da quaresma.  É bem verdade, porém, que não apenas devemos fazer da penitência, das orações, jejuns e tantas outras práticas um fim em si mesmas, ou mesmo uma especificidade da quaresma. São caminhos que alimentam a “esperança” do encontro com um Deus que se dá em Amor. É o ápice do encontro entre aquele que vai, neste caso nós e nossas misérias, e Aquele que vem, o Cristo Ressuscitado no terceiro dia.

Portanto, já que na quaresma temos esperança no Cristo que nos salvou na cruz, permitam-me apropriar-me das palavras do Santo Padre, Bento XVI em sua recente Carta Encíclica, “Spe salvi” – sobre a Esperança Cristã. “Pela esperança podemos enfrentar o nosso presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se leva a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.” Quem espera não fica inerte, caminha em busca... Atualiza em sua vida o “Spe Salvi facti sumus” – é na esperança que fomos salvos (Rm 8,24). Que nossa quaresma seja pois uma oportunidade fecunda de dar sentido à esperança n’Aquele que nos redimiu com sua doce paixão, morte e ressurreição.



 
 
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