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O Diálogo - Sacramento do Coração do Pai
Jerônimo Lauricio - Bacharel em Filosofia.
E-mail: jeronimolauricio@gmail.com
 
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É interessante indagar a maneira como nutrimos nossas relações e de que pressupostos partimos para amadurecê-las. Questões assim faz-nos mais humanos, e a gente acaba sempre seguindo o fio condutor do princípio dialógico acreditando que esse pode nos conduzir a respostas seguras. Cada instante que passa, sou tomado pela convicção de que o diálogo é fundamental, como demonstrava os filósofos do encontro existencial.

É belo notar como a reciprocidade existencial pressupõe a semelhança e a diferença, uma vez que só o que é em parte igual e em parte diferente, pode enriquecer-se com mútua relacionação. Assim acontece na nossa relação com Deus, que é pessoal, dialogal. É um encontro eu-tu, que pela abertura, amizade e amor estabelecem comunhão e inauguram uma aliança.

Numa perspectiva antropológica, é nesse diálogo eu-tu que se forma e se estabelece a identidade humana. Pois é a partir do outro que descobrimos nosso próprio eu. Gosto de pensar que assim também acontece com nossa experiência de Deus.

É um encontro das partes com a Totalidade; um diálogo amoroso que nos leva a querer conhecê-Lo mais, num autêntico processo de enamoramento. Aliás, essa expressão derivada do verbo "enamorar" (en= ação de envolver) en-amor-ar, isto é, envolver em amor, faz-nos compreender com profundidade essa relação. Pois quando nos enamoramos de uma pessoa, tudo dela se trona sacramental.

Nesse encontro crescemos, fazemos a experiência da nossa mais envolvente abertura ao outro. Por esta experiência nos sentimos profundamente humanos, e não conseguimos pensar a felicidade e a eternidade senão como prolongamento de forma infinita e bela dessa realidade plena de sentido.

É nessa linha de experiência que fazemos nosso encontro com Deus: encontro  num amor crescente que nos leva  a querer entendê-lo cada vez mais, para amá-lo melhor, enamorarmos d'Ele.

Acho profundamente poético e teológico o discurso do Amado Papa João Paulo II ao dizer que "nascemos de um ato amoroso de Deus e que por isso mesmo estamos ancorados no coração do Pai." Desta maneira a vida se torna leve, se transforma em encantamento e em poesia. Um verdaeiro sacrifício de Amor. Sim... isto mesmo.. é um "sacro - facere" (sacrifício), um "fazer sagrado", que pelo  Amor  transfigura e sacramentaliza a realidade.

Nosso desafio consiste portanto, dar testemunho dessa reciprocidade dialógica, desse encontro do amor que desce de Deus, com o amor que sobe do homem.



 
 
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