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Junto ao sacrário
Por: DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO
ARCEBISPO EMÉRITO DE JUIZ DE FORA, MG.
 
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“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos aliviarei” (Mt 11,28)

Diante do Santíssimo Sacramento, esta frase deve ser sempre a primeira a soar-nos aos ouvidos. É o convite que Nosso Senhor nos faz, primeiro, sabedor de nosso sofrimento, de nossas fragilidades, de nossas ansiedades. É Ele o Bom Pastor que nos tranqüiliza e, quando feridos, nos carrega nos ombros, como traduzem as mais antigas iconografias; é Ele o cireneu que nos ajuda a suportar o peso da cruz que, muitas vezes, escolhemos carregar; é Ele o remédio salutar para as vúlneras abertas em nossa alma pela soberba da vida. Ali, no Santo Tabernáculo, está o Divino Amigo à nossa espera para nos ouvir, para nos consolar, para nos animar a seguir adiante, sempre com os olhos fitos na cruz.

A cruz – ignomínia para os pagãos, salvação para os cristãos – antagonicamente nos fortalece a confiança na salvação, ao mesmo tempo em que aterroriza os empedernidos. Mas esse instrumento de “pavor e de amor”, como a ela se alude São Luís Grignon Maria de Monfort, deve ser, antes de qualquer conjetura exegética, um meio de aproximação com o Cristo. Sim! Quanto mais ela pesar em nossos ombros, mais nos uniremos a Nosso Senhor pelo sofrimento e sentiremos a sua presença paterna, fraterna e inspiradora a desejarmos, sempre mais, essa união.

Esse desejo, no entanto, é diferente dos anelos levianos que nos impelem a muitas atitudes em nossa existência. Essa aspiração, mais do que a fama, a tranqüilidade, ou as riquezas, é o mais puro desejo de Deus, a partir da assimilação das virtudes teologais; é postar-se em constante oração, como nos sugere uma antiqüíssima oração formulada pela piedade popular: “Domine Jesu, te desidero, te quæro, te volo” – “Senhor Jesus, te desejo, te quero, te procuro”. Desejo puro, imaculado, sincero; puro porque nada nos leva a esse desejar, senão o estar com Ele; imaculado porque sua origem em nosso íntimo não é corrompida por nenhum interesse, senão o de estar com Ele; sincero porque, quando se O deseja simplesmente de forma pura e imaculada, sentindo uma satisfação afetiva sublime e plena, nada mais se deseja, senão estar com Ele. Como dizia o cardeal de Lubac, “é o que há de mais profundo, mais essencial e mais elevado no ser humano”. “Quanto mais o desejo nos dilata o coração, tanto mais capazes nos tornamos de acolher Deus”, assegura-nos Santo Agostinho.

Na confabulação íntima com Nosso Senhor conseguiremos unirmos a Ele, mais e mais. “À sombra daquele que desejava assento-me e doce é o seu fruto ao meu paladar” (Ct 2,3). À frente do Santo Tabernáculo despojamo-nos de nós, abandemo-nos à vontade de Deus, unamo-nos a Ele na comunhão sacramental e na contemplação.

Como paradigma, apresento aos diletos membros de nosso presbitério e aos caros filhos desta nossa Arquidiocese de Juiz de Fora a figura do bem-aventurado Manuel Gonzáles Garcia (1877-1940). Esse virtuoso bispo de Málaga, na Espanha, foi cognominado o “bispo dos sacrários abandonados”, tornando-se em seu tempo um grande propagador da devoção eucarística, pela palavra e pelo exemplo.

Sejamos como esse santo bispo, que fez da eucaristia o centro de toda a sua vida e incentivou seus filhos espirituais a também fazê-lo, da mesma forma como estimo que nossos caros diocesanos o façam. Nos instantes de alegria e de tristeza, de fartura e de sobriedade, de satisfação e de provação, estejamos sempre, genuflexos, diante de Nosso Senhor, no sacrário. Ele nos chama: “Ficai aqui e vigiai Comigo” (Mt 26,38). Sejamos, portanto, fiéis adoradores e amigos de Jesus, fazendo-Lhe companhia na solidão do tabernáculo; consolando-O da frieza do coração dos homens; testemunhando-O ante a indiferença do mundo.

“A nossa existência seria carente de um elemento fundamental se nós não fôssemos os primeiros contempladores do rosto de Cristo”, exorta-nos o saudoso Papa João Paulo II (“Novo millennio ineunte”, 16). Corramos, pois, para junto do sacrário e busquemos fortalecer essa intimidade espiritual com o Divino Mestre, Caminho, Verdade e Vida, até que possamos, um dia, contemplá-lo face a face. “Mostrai-nos serena a Vossa face e seremos salvos” (Sl 79,4), é a súplica que dirigimos a Nosso Senhor, pedindo a Nossa Senhora que nos ensine a perseverança eterna nessa busca de Cristo.



 
 
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