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Ah! se conhecesses o dom de Deus...
Por: DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO
ARCEBISPO EMÉRITO DE JUIZ DE FORA, MG.
 
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Causou-nos dó, pena, compaixão, assistir o triste espetáculo do final de um mega-show, no domingo passado, em Copacabana. Multidão de jovens, diz a imprensa que mais de 700.000, esfalfados, esgotados a vagar pelas ruas, procurando meios de voltar para suas casas.

Horas e horas perdidas em busca de algo que lhes satisfizesse e saciasse o coração e nas quais exauriram suas forças e suas ânsias. E, no final, o vazio.

Podia-se contemplar, preso no trânsito caótico e ainda em meio a desordens, as suas faces cansadas e que não refletiam sequer um lampejo de paz e felicidade. E quantos ainda caídos, dominados pelo álcool e talvez pelas drogas.

Lembrei-me, então, das palavras de Jesus à Samaritana: “Ah! Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz, “dá-me de beber” tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Cf. Jo. 4,10) e, por demais conhecida, da confissão de Santo Agostinho: ”Vós nos criastes, Senhor, para Vós e nosso coração está irrequieto enquanto não repousa em Vós”.

A Humanidade tem sede de paz e a grande multidão de jovens mais ainda, pois, o ideal lhes fugiu das mentes e da vida. Todos correm atrás do brilho efêmero que a civilização atual lhes apresenta, mas que logo é corroido e desaparece na voragem do tempo.

O cristão, discípulo e missionário, deve ser o profeta nesse meio. No batismo, recebeu a unção que leva-o a denunciar o pecado, mas também a edificar e plantar e implantar o Novo Reino, na participação do múnus real e sacerdotal de Cristo.

Jesus, com paciente perseverança, levou aquela que se declarou, logo no começo da conversa, como inimiga, pois era samaritana e ele judeu, a nele reconhecer o Messias que lhe poderia dar a água viva que lhe mataria a sede para sempre. Dentro de si teria “uma fonte de água corrente para a vida eterna”(Cf. Jo. 4,14).

No final do texto evangélico, quando os discípulos chegaram para lhes trazer alimento, Jesus nos fala do verdadeiro alimento, o cumprimento da vontade de Deus e a realização, o termo da obra do seu amor, a salvação dos homens. E recorda-nos a missão: “levantai os olhos e contemplai os campos que já estão maduros para a colheita” (Cf. Jo. 4,35)

A água que Cristo nos dá, ensina São Cirilo de Alexandria, é a graça do Espírito Santo e quem dela participa tem em si mesmo a fonte dos ensinamentos divinos para poder exortar os outros que têm sede da Palavra de Deus.

O cristão não pode assistir impassível a presença e o avanço das forças do mal no mundo. Ele tem dentro de si a virtude do Espírito capaz de saciar a fome e a sede que todos temos de paz e felicidade.

“Vós sois o sal da terra”...Vós sois a luz do mundo...Assim brilhe vossa luz diante dos outros para que vejam vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” (Cf. Mt. 13-16). Não podemos deixar que este sal perca a sua força, que esta luz seja escondida, pois só Cristo é capaz de saciar os corações. Temos de ser presença no mundo e mostrar à humanidade o caminho da vida.

A evangelização, porém, não prescinde da graça de Deus, como também a própria luz da fé que trazemos no coração. Jesus nos disse: “sem mim, nada podeis fazer” (Cf. Jo. 15, 5). Temos de estar unidos a Cristo e nele permanecer para dar muitos frutos e ser verdadeiros discípulos. Devemos alimentar nossa vida interior com a oração e as obras de misericórdia, como o sal conserva o alimento e as torrentes giram as usinas elétricas. Só assim seremos a bússola que pode nortear a humanidade e, sobretudo, a juventude que se perde na pressão que lhe faz o Mal.

Neste tempo santo da quaresma, renovemos nossa vida interior como discípulos do Senhor para levar ao mundo a sua paz, anunciando a Luz do Evangelho.



 
 
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