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Como precisamos ver Jesus?
Por: DOM ANTÔNIO AFFONSO DE MIRANDA - SDN
BISPO DE TAUBATÉ - SP
 
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Após a celebração do Ano Santo de 2000 e a publicação de Tertio millennio ineunte de João Paulo II, foi marcante em nossa pastoral um programa proposto com esta frase auspiciosa: “Queremos ver Jesus!”

Ele teve grande aceitação e repercutiu, Brasil afora, por algum tempo. Hoje, que resta desta proposta?

É lastimável como se vão evaporando dentro de nossos ideais de evangelização tantas formulações bonitas como esta: “Queremos ver Jesus!”. Ela fora inspirada no pedido daqueles gregos que subiram a Jerusalém para adorar a Deus e rogaram ao apóstolo Filipe: “Senhor, queremos ver Jesus!”(Jo 12, 21). Um dos encantadores textos  do Evangelho de João.

Parece-me que todos os que recebem o toque da graça para a busca de Deus repetem, no coração, este pedido.

Mas, como hoje pode Jesus ser visto pelas pessoas de boa vontade? Pela fé, à luz das Sagradas Escrituras, sobretudo do Novo Testamento.

E em Jesus é preciso ver com os olhos da fé: o seu “ser pessoal”, a “sua missão profética”, a “sua obra redentora”, sua “missão salvadora” e as suas funções de “Mediador” e “Sacerdote”, e, finalmente, sua dignidade suprema  de “Rei do universo.”

Depois de tudo o que expusemos sobre Jesus Verbo Encarnado Filho de Deus e Ungido pelo Espírito Santo, creio que quantos me leram atentamente teem uma idéia  não simplesmente humana de Jesus. Teem dele uma idéia que ultrapassa toda conjectura humana: Jesus é Deus feito homem.

Seu rosto, sua fisionomia vista na terra, era a de Jesus de Nazaré. Mas, oculta na fisionomia do Homem de Nazaré, estava a divindade do Filho de Deus. E, depois que este Homem de Nazaré foi batizado no Jordão, sobre sua humanidade desceu o Espírito Santo, que o ungiu para uma missão “profética e salvadora” do mundo inteiro mergulhado no pecado.

A partir de então, ele começou a pregar por toda parte, apelando a todos a que se  convertessem, porque era chegado o Reino de Deus sobre a terra. (Cf. Mt 3, 17; Mc 1,14-16; Lc 4,15)

Acompanhando a sua pregação, seguiram-se milagres de cura de numerosos doentes e a admiração do povo, que o acompanhava em multidões de toda parte. (Mt 4,14, 24 e 25; Mc 1,21-23; 32-35; Lc 4,14-16; 40-42) Ele era para todos um profeta como não existira antes outro igual.

Se percorrermos os quatro Evangelhos, atentos a todos os acontecimentos e palavras, sobretudo face a que Jesus previu sua morte pregado na cruz e sua ressurreição (Mt 16, 21-24; Mt 17, 21 e 22; Mc 9, 31 e 32; Lc 18, 32-34; Jo 16, 19-21 e 28), há que concluir que ele tinha uma missão singular, divina: resgatar o pecado do mundo por sua morte e garantir-nos a esperança da ressurreição final.

Portanto, ainda que repetindo: é preciso ver em Jesus: seu “ser divino e humano”; sua “missão profética”; sua “função redentora”, e, como conseqüência, o desempenho de uma “função santificadora”, uma “função mediadora” entre Deus e a humanidade, e, enfim, sua “realeza eterna e invencível”( Jo 18, 36-38).

Já enfoquei suficientemente, creio, o seu “ser pessoal” e a sua “missão profética”. Quero acrescentar algo ainda sobre sua “missão  salvadora.”

Evoco o episódio do anúncio de João Batista: “No dia seguinte, João (o Batista) vê Jesus que vem ao seu encontro, e disse: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.”(Jo 1, 290) Ninguém podia, naquele instante, entender o sentido de tal anúncio. Cordeiro é um animal. Aquele homem que se aproximava era uma pessoa.

Entretanto, ligando-se a palavra “cordeiro” à expressão: “que tira o pecado do mundo”, é fácil concluir que o profeta João Batista identificava Jesus com o “cordeiro que se imolava na Páscoa.” Jesus era “o cordeiro pascal verdadeiro”. Num dia de Páscoa ele será imolado “para tirar o pecado do mundo”. Por ele, imolado na cruz, o mundo será salvo.

Entende-se, então, o que disse o outro João, o evangelista: “Deus não mandou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas que o mundo seja salvo por ele.” (Jo 3, 17)

Esta é a “missão” do Verbo Encarnado. Não só ele revela o Pai. “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1, 18). Ele  revela o Pai e salva o mundo para o Pai, pelo sacrifício da cruz. Ele o revelou por sua “missão evangelizadora”. Ele salvará o mundo por sua “função sacerdotal”, “sacrifical” e “redentora”, no mistério de sua morte na cruz.

Antes, porém, de enfocar este mistério, acho importante apontar dois aspectos montantes na sua ação evangelizadora: a sua preferência pelos pobres e sua preferência pelos pecadores.

A preferência de Jesus pelos pobres

Muito se salientou, e também se “ideologizou”, nos últimos tempos, a preferência de Jesus pelos pobres. E ela foi, inegavelmente, uma das preferências de Jesus. Ele mesmo assegurou que a efusão do Espírito lhe tinha sido dada para que evangelizasse os pobres. Usando o texto de Isaias, na Sinagoga de Cafarnaum, ele disse:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, e enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres...” (Lc 4, 18).

E mais tarde, enquanto João lhe enviou discípulos a perguntar: “És tu o que há de vir, ou devemos esperar outro?”, eis a sua resposta: “Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, e aos pobres é anunciado o Evangelho...” (Lc 7, 18 – 23).

Não há, pois, por onde negar que Jesus, na sua obra salvadora, se dirigiu, mui particularmente, aos pobres.

A preferência de Jesus pelos pecadores

Mas a mim me parece que o característico mais frisante de sua obra salvadora, foi a preferência pelos pecadores. Se preferência teve pelos pobres, entre os mais pobres estavam eles, espiritualmente, os pecadores. E a estes ele veio buscar.

Para comprovar isto, avulta entre suas afirmações esta, transmita por Marcos: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17), registrada também por Lucas com pequeno acréscimo: “Não vim chamar à conversão os justos, mas sim os pecadores”. (Lc 5, 22). E, ao afirmar isto, ele não se achava no meio de pobres, sim à mesa com pessoas ricas, na casa do cobrador de impostos Levi, rodeado por numerosos outros de sua amizade. E foi por isso mesmo que o acusaram e perguntaram a seus discípulos: “Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores?”

Sua preferência pelos pobres, portanto, não excluia os ricos, nem os desprezava. Antes, ele os procurava, e dizia: “Não são os homens de boa saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos”. (Lc 5, 31).
E ao concluir a parábola da ovelha perdida, sentenciou: “Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”. (Lc 15, 7).

Sentenças tão positivas nos mostram que o objetivo primeiro da obra salvadora de Jesus eram os pecadores. Estes constituem a sua opção, de fato, preferencial.

Aos pobres queria bem, amava-os, e até se fizera pobre como eles, e a eles anunciava a Boa Nova, porque deles era o Reino dos Céus. (Mt 5, 3). Mas aos pecadores, buscava-os em suas próprias casas, porque doentes necessitados da primeira cura: o arrependimento e o perdão.

É significativo ver como Jesus, na sua obra evangelizadora e santificadora, tratou os maiores pecadores.
Busquemos no Evangelho os mais belos exemplos.

1. A pecadora penitente – Lc 7, 36-50
2. A mulher adúltera – Jo 8, 3-12
3. A parábola do filho pródigo – Lc 15, 11-32
4. O episódio da mulher cananéia – Mc 7, 24-31
5. Enfim, o modo como Jesus tratou Judas o traidor, (Lc 22, 48) e Pedro que o renegou na paixão. (Lc 22, 61) e (Jo 21, 15-19).6.

Mas, certamente, o mais belo exemplo de sua misericórdia para com os pecadores está na promessa feita ao bom ladrão que com ele fora crucificado: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso.” (Lc 23, 39-44).



 
 
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